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A expressividade do cinema mudo na construção de significados



The expressivity on silent movies for the signification construction


La expresividad del cine mudo en la construcción de significados


Leilane Lima Sena de Andrade*

Ualisson Nogueira Nascimento**

Sofia Hardman Côrtes Quintela***

Larissa Azevedo Ramalho***

Macella Ferreira Bomfim Cabral****

Ingrid Caroline Barreto Mesquita***

Aline Almeida Fontes**

Renata Castelan Borges*****

Andrea Cristina Versuti****



Resumo Objetivo: analisar como a expressividade corporal e facial favorecem a construção de significados no filme Tempos Modernos. Métodos: pesquisa qualitativa, de caráter analítico. Foi analisada a expressividade do personagem Carlitos em três trechos do filme, que aconteceram em uma fábrica, nomeados como: início, descanso e aceleração do trabalho. Os trechos foram observados e discutidos pelo grupo de estudo e pesquisa ?A Voz e suas Interfaces?. Resultados: O primeiro momento analisado, início do trabalho na linha de produção, observou-se Carlitos com gestos mecânicos, postura rígida, ombros retraídos e lateralização de cabeça. Na expressividade corporal: tensão facial, olhos focados e cansados, lábios protruídos, elevação das sobrancelhas. A emoção revelada por sua expressividade foi surpresa. No segundo momento, durante seu descanso, permanece conforme todos os aspectos supracitados. Este dado enfatiza o cárater robotizado que sua função provoca no protagonista. No terceiro momento, em que há aceleração da esteira para aumentar a produção, o protagonista intensifica os gestos mecânicos para apertar as porcas, ao alongar o pescoço, com o movimento afirmativo de cabeça e elevação dos ombros. Apresenta expressão facial com tensão, olhos bem abertos e piscar constante, transmitindo as emoções * Fonoaudióloga, Mestranda em Educação pela Universidade Tiradentes ? UNIT, Diretora e pesquisadora responsável da Vocal Assessoria e Consultoria, Professora Substituta do curso de Teatro da Universidade Federal de Sergipe (UFS); **Fonoaudiólogo(a), Especializando(a) em voz pelo Instituto de Desenvolvimento Educacional - IDE Cursos, Pesquisador(a) da Vocal Assessoria e Consultoria; ***Graduanda em Fonoaudiologia pela UFS, Pesquisadora da Vocal Assessoria e Consultoria; ****Fonoaudióloga, Especializanda em Audiologia pelo CEFAC, Pesquisadora da Vocal Assessoria e Consultoria; ***** Fonoaudióloga, Pesquisadora da Vocal Assessoria e Consultoria; ******Fonoaudióloga, Mestranda em Educação pela Universidade Tiradentes ? UNIT; *******Doutora em Educação, Ciência e Tecnologia pela UNICAMP, Professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIT de surpresa associada ao medo. Conclusão: No cinema mudo, o ator utiliza a expressividade corporal e facial para transmitir a emoção e o contexto sociopoliticocultural. Este estudo demonstra que, através da mídia, o fonoaudiólogo pode aperfeiçoar seus conhecimentos científicos quanto à expressividade e sua relação com as emoções humanas, favorecendo seu trabalho com os profissionais que utilizam esses meios para levar a mensagem.


Palavras-chave: cinema como assunto; comunicação não verbal; fonoaudiologia.


Abstract Objective: analyze how the body and facial expressivity favours on the signification construction on the Charlie Chaplin?s Modern Times movie. Methods: qualitative and analytical research. It was analyzed the expressivity of the character Little Tramp in three parts of the movie, which happened in a factory, named as: starting, resting and work acceleration. The parts were discussed by the ?The Voice and its Interfaces? study and research group. Results: on the first moment analyzed, it was observed the Tramp presenting mechanical movements, rigid posture, retracted shoulders and lateral leaning of the head. For the body expressivity: facial tension, focused and tired eyes, protruded lips, elevated eyebrows. The emotion revealed by his expressivity was surprise. On the second moment, he remains exactly in the same way in all the aspects previously mentioned. This aspect emphasizes the robotic characteristic that his function provokes on him. On the third moment, the protagonist intensifies the mechanic gestures to tighten the nuts, extending the neck with a head affirmative movement and shoulders elevation. He shows facial expression of tension, wide opened eyes and constant blinking, transmitting the emotions of surprise associated to fear. Conclusion: in the silent movie, the actor uses the body and facial expressivity to transmit the emotion and the social, political and cultural context. This study shows that, through the media, the speech therapist can improve his scientific knowledge of expressivity and its relations with human emotions, improving his work with professionals that use these ways to carry on a message. Keywords: motion pictures as topic; nonverbal communication; speech, language and hearing sciences.


Resumen Objetivo: Analizar como la expresividad corporal y facial favorecen la construcción de significados en la película Tiempos Modernos. Métodos: Investigación cualitativa de carácter analítico. Se ha analizado la expresividad del personaje Carlitos en tres partes de la película, que ocurrieron en una fábrica, nombrados como: inicio, descanso y aceleración del trabajo. Las partes han sido observadas y discutidas por el grupo de estudio e investigación ?La Voz y sus Interfaces?. Resultados: En el primer momento analizado, se observó a Carlitos con gestos mecánicos, postura rígida, hombros retraídos y lateralización de cabeza. En la expresividad corporal: tensión facial, ojos concentrados y cansados, labios sobresalientes, elevación de las cejas. La emoción revelada por su expresividad fue sorpresa. En el segundo momento, durante su descanso, permanece exactamente igual, conforme todos los aspectos anteriormente mencionados. Este dato enfatiza el carácter robotizado que la función provoca al protagonista. En el tercer momento, cuando la estera se acelera para aumentar la producción, el protagonista intensifica los gestos mecánicos para apretar las tuercas, al alargar el cuello con el movimiento afirmativo de cabeza y elevación de los hombros. Presenta expresión facial con tensión, ojos bien abiertos y guiño constante, transmitiendo las emociones de sorpresa y miedo. Conclusión: En el cine mudo, el actor utiliza la expresividad corporal y facial para transmitir la emoción y el contexto socio-político-cultural. Este estudio demuestra que, a través de los medios de comunicación, el fonoaudiólogo puede perfeccionar sus conocimientos científicos en cuanto a la expresividad y su relación con las emociones humanas, favoreciendo su trabajo con los profesionales que utilizan esos medios para llevar su mensaje. Palabras clave:cine como asunto; comunicación no verbal; fonoaudiología.


Introdução Costuma-se dizer que o cinema nasceu na primeira exibição pública de películas, em 1895, no Grand Café em Paris. Desde então, o grande truque do cinema é que os telespectadores vêem imagens projetadas e as consideram reais. Assim, eles absorvem movimento, ação e emoção1 . O cinema nasceu mudo e através desse aspecto vinha sua principal vantagem, a universalidade. Deste modo, o mesmo filme era exportado para vários países2. Contudo, em 1929, há a introdução do som, passando do cinema ?mudo? ao do som sincronizado com as imagens. Essa transição não aconteceu tranquilamente, já que alguns cineastas consideravam que a nova invenção tirava o encanto do filme, provocando um desequilíbrio no limite estabelecido pelo cinema mudo entre o real e irreal3 . A marca do cinema mudo é a expressividade dos seus filmes e o poder desta habilidade comunicativa na transmissão das emoções e sentimentos. Atores, através da linguagem corporal e de suas expressões faciais, dão sentido ao filme mudo, nos fazendo compreender os personagens e suas histórias4 . Com a introdução do som neste produto midiático, houve uma suavização da expressividade dos atores para manter equilíbrio entre essas duas ferramentas. A comunicação não-verbal, expressa pelos gestos, pela face, postura e orientação corporal, aparência física entre outros aspectos que relacionam o corpo ao ambiente, são manifestações comportamentais relacionadas ao contexto individual e social no qual o falante está inserido. Desta forma, a linguagem corporal expressa as emoções, as reações e os sentimentos associados à mensagem transmitida, de forma natural e intuitiva5-7. Vários estudos têm sido realizados com a intenção de analisar essas manifestações, bem como verificar o impacto desta linguagem nos interlocutores envolvidos8,9. Quanto às manifestações desta linguagem corporal, de acordo com pesquisas, alguns gestos são universais e sempre estão relacionados a significados que abrangem os diferentes aspectos culturais. Além dos gestos, as emoções consideradas básicas ? alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa e repugnância ? também possuem esse aspecto de universalidade, não só na sua manifestação, como também na sua possibilidade de reconhecimento10,11,12. Ou seja, a linguagem não-verbal pode atuar de forma poderosa sob os aspectos emocionais, afetivos e racionais durante a comunicação. Por esta razão, uma reflexão sobre as estratégias e o comportamento não-verbal do sujeito comunicador possibilita melhor compreensão da construção comunicativa, favorecendo a comunicação entre o falante e seu interlocutor13,14. No Brasil, existem poucas pesquisas que tenham como foco a análise da expressão corporal e sua intenção comunicativa, o que deve-se a maior ênfase em estudos relacionados à voz. As pesquisas voltadas para os estudos com a linguagem corporal, propõem-se a analisar as emoções reproduzidas na expressão facial de árbitros e jogadores durante partida de futebol, bem como avaliar a importância dos recursos não-verbais de professores em sala de aula e de profissionais que lidam com clientes. Nesses estudos, a importância da linguagem corporal na intenção comunicativa é destacada, apesar do desconhecimento dos indivíduos envolvidos quanto aos significados que estão associados aos seus movimentos corporais. Conclui-se ainda, que essas expressões são dados científicos importantes para maior aprofundamento sobre a relação entre este e as emoções, reafirmando a necessidade de pesquisas nesta área15,16,17. Ao se considerar que a linguagem do cinema mudo está concentrada no ato não verbal, já que o corpo envolve todos os outros recursos cinematográficos, a fala, o movimento de câmera, o enquadramento e a trilha sonora, os atores deste tipo de filme possibilitam que seus personagens sejam compreendidos, mesmo em países com outras línguas, através dessa linguagem não verbal. Essa universalidade dos atos não verbais, marcante no cinema mudo, é que por exemplo, nos faz compreender a mensagem comunicada pelo personagem de Charles Chaplin sobre todo o contexto do filme Tempos Modernos18,19. Tempos Modernos foi um filme de 1936, dirigido, produzido e atuado por Charles Chaplin, que se tornou um marco do cinema por diversos aspectos. Neste filme, ocorreu a última aparição de Carlitos, personagem que deixou Chaplin mundialmente famoso. Diversos assuntos e problemas sociais da década de 1930, muitos deles trazidos pela expansão da sociedade industrial, são abordados de forma cômica no filme, no qual o protagonista explora e problematiza essas questões por meio da sua expressividade corporal. No cinema mudo, o corpo do personagem é a mídia principal. Através desse corpo comunicante é que o protagonista expõe os assuntos abordados no filme para o espectador20,21. Chaplin atuava em pantomimas, em cafés-concertos. Com a oportunidade de estrear como ator no cinema, fez ganhar grande sucesso e notoriedade, possibilitando que dirigisse, atuasse e produzisse seus próprios filmes22. Foi a sua perspicácia que retomou a credibilidade do cinema pré-falado como um produto artístico. Seu personagem mais famoso, o Carlitos, era reconhecido pelo público apenas pelo rosto e o passo de ganso, expressões corporais caricatas que promoveram grande sucesso para o ator e por meio delas, dissipou aos espectadores, críticas sociopolíticas, principalmente à modernização. A universalidade de seus signos e o pioneirismo com a gestualidade diante das câmeras, permitindo a interação corpo-objetos, refletia sua estranheza perante o mundo urbano e a escravização diante do fluxo das máquinas22,23. Pode-se observar que a expressividade do ator no cinema mudo era um elemento cinematográfico importante no contexto do filme para apresentá-lo ao espectador não só como entretenimento, mas também como um produto educacional. Em tempos atuais, com o crescimento de novas tecnologias para o cinema, essa discussão ressurge com a recente premiação do Oscar de 2012 do filme mudo produzido pela Warner Bros e dirigido por Michel Hazanavicius, O Artista (2011). Assim, buscando entender o papel da expressividade corporal como um comunicador de significados, o objetivo desse trabalho é analisar como a expressividade corporal e facial favorecem a construção de significados neste produto fílmico.


Método Este estudo orientou-se por uma abordagem de caráter qualitativo, descritivo e de análise documental. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa com imagens, optou-se pela técnica de análise indutiva como viés. Assim, foi utilizado como referencial metodológico uma adaptação do ?Método Documentário de Interpretação?, de Ralph Bonsak (2007), que propõem uma análise investigativa a partir da compreensão de ?como? as imagens são constituídas, para depois compreender os seus significados. Por esta razão, não houve protocolo definido a seguir, e sim a avaliação de cada trecho fílmico, seguida de discussão dos três parâmetros estabelecidos previamente pelos pesquisadores: a postura, a movimentação corporal e a expressão facial do personagem. Para análise dos parâmetros, escolheu-se um trecho que destacasse o protagonista em sua atuação, para assim observar a relação de sua expressão corporal com a temática do filme. As cenas escolhidas foram encontradas logo no ínicio da película, o período fílmico entre 00:03:03 à 00:14:00, que se desenvolvem dentro de uma linha de montagem de uma fábrica. Deste período escolhido, foram excluídas situações de voz de outros personagens, legendas e cenas sem o protagonista, priorizando o personagem principal, mas não o desconsiderando de todo o contexto em que se expunha. Optou-se por este trecho fílmico por sua clareza em explorar o tema central do filme, a mecanização do trabalho, o que está diretamente relacionado ao objetivo deste estudo. A análise da expressão corporal e facial do protagonista foi realizada em um único encontro, através da observação e discussão em grupo dos trechos escolhidos do filme. Este foi composto por 04 fonoaudiólogos e 04 graduandos em Fonoaudiologia que compõem o grupo de estudo e pesquisa ?A Voz e suas Interfaces?. A observação do trecho do filme foi subdividida em três momentos: Momento 1 (M1 ? Início do trabalho) que se estende de 00:03:03 à 00:03:30; Momento 2 (M2 ? Intervalo do trabalho) que desenrola-se entre 00:08:10 à 00:08:33 do filme, e finalmente o Momento 3 (M3 ? Trabalho acelerado) que transcorre do 00:13:18 até 00:14:00. 


Resultados O filme Tempos Modernos traz a visão crítica do diretor sobre o contexto sociopolítico e industrial da época. O efeito exaustivo e repetitivo dos gestos mecânicos é mostrado na expressividade corporal do personagem Carlitos, levando o ser humano, enquanto trabalhador na fábrica, a uma condição de quase um autômato. No trecho M1, o protagonista trabalha na linha de montagem de uma fábrica com a função de apertar porcas em parafusos nas peças que passam na esteira industrial a sua frente. Com o mesmo movimento em todas as peças, ele precisa realizar seu trabalho com ritmo e sem interrupções, acompanhando a velocidade dessas peças sem prejudicar o andamento do trabalho dos outros funcionários que estão ao seu lado na esteira. Ao observar a linguagem corporal do personagem no trecho M1, nota-se postura rígida, ombros retraídos e os movimentos repetitivos das mãos para o aperto das peças. Após uma parada de poucos segundos para se ?coçar?, Carlitos atrasa o seu trabalho e necessita acelerar os seus movimentos para não prejudicar a sua produção, bem como a de seus colegas. Ao tentar retomar o ritmo ele é pressionado pelo supervisor, e para cumprir a cobrança, inclina o corpo frontalmente, como se tentasse alcançar os objetos que surgem na esteira em sua direção. Ao justificar-se com o seu chefe, ele atrasa novamente o andamento na esteira, retomando ao trabalho com mais tensão, lateralizando a cabeça para o início da esteira e elevando as sobrancelhas ao finalizar cada peça. Quanto à expressão facial, seu rosto está tenso, seus olhos demonstram foco e ao mesmo tempo cansaço, os lábios protruídos direcionam a atenção aos objetos. Ao analisar a emoção revelada neste trecho da cena, nota-se a expressão de surpresa na face do personagem, destacada pela contração dos músculos frontal e elevador da pálpebra superior. No M2, o protagonista encontra-se no local de almoço. Mesmo após sair da linha de montagem, o personagem Carlitos permanece com os gestos mecânicos da esteira e caminha fazendo-os aceleradamente como se ainda estivesse no processo de produção. Ao se sentar, não percebe o prato no banco e assusta-se quando seu colega o alerta. Para reforçar a mecanização e robotização dos funcionários, em seguida, ao segurar um prato com refeição, Carlitos faz movimentos circulares com este, uma alusão ao que é realizado nas porcas da esteira da linha de montagem. Nestes dois momentos (M1 e M2), sua expressão facial permanece exatamente a mesma, demonstrando a continuidade dos hábitos gerados pelos movimentos repetitivos e, não diferente, com a face. A expressão de surpresa continua e os gestos mecânicos estão presentes, uma vez que no M2, Carlitos não percebe que não está mais na esteira. No M3 ocorre a intensificação da atividade na linha de produção e os funcionários são obrigados a acelerar os movimentos para acompanhar o aumento da velocidade da esteira, para conseguir aumentar sua produtividade. Carlitos não consegue acompanhar totalmente o ritmo da esteira, aumentando ainda mais os movimentos para finalizar cada peça, além de manifestar expressões corporais e faciais mais exageradas. Neste M3, o supervisor reaparece, observa a produção reduzida devido ao atraso de Carlitos, cobra mais agilidade na finalização de cada peça, apontando o início da esteira como meta para o personagem. Com este fato, ao concluir cada peça, Carlitos alonga o pescoço e faz movimento afirmativo com a cabeça, além de elevar os ombros em direção ao próximo objeto. Na face, pode-se notar expressões mais tensas, como olhos bem abertos e piscar constante. Além da cobrança de produtividade, o supervisor adverte sobre demissão se o personagem desacelerar o ritmo novamente. Ao atrasar mais uma vez, sem a presença do supervisor e já condicionado, ele retoma rapidamente ao início da esteira. Nota-se que a expressão facial caracterizada pela aceleração no trabalho de Carlitos é a de surpresa associada ao medo, este marcado pela acentuação das ações musculares das partes internas e externas do músculo frontal e a movimentação do corrugador do supercílio, prócero e o elevador da pálpebra superior, além do músculo orbicular da boca que mantem os lábios em protrusão. Nos três trechos fílmicos descritos acima, nota-se que a intenção comunicativa neste produto midiático se dá entre a expressividade do personagem (emissor) e o telespectador (receptor), visto que em cada momento analisado, a postura, o movimento corporal e as expressões faciais comunicam ao receptor como a situação de trabalho de Carlitos altera o seu estado emocional.


Discussão A expressividade pode ser vista como a habilidade de ?dar vida? ao pensamento por meio da linguagem e expressão corporal, interagindo com o outro para a construção de uma idéia24. O filme mudo Tempos Modernos traz a linguagem corporal como único recurso para a transmissão da mensagem, que neste caso, é sociopolítica. Dessa forma, este produto cinematográfico é uma mídia que nos proporciona uma educação através das suas imagens, especificamente, dos gestos e expressões do seu protagonista, reforçando a importância da expressividade no processo comunicativo. No M1, a rigidez na postura de Carlitos, refletida em seu tronco posicionado em frente à esteira, pescoço tenso curvado para baixo e braços tensionados realizando gestos mecânicos, demonstra a atenção do personagem ao trabalho. Ao atrasar o andamento da produção, seus movimentos são acelerados e seu corpo curva-se em direção ao início da esteira na tentativa de compensar o atraso. Neste momento, ao concluir cada peça, o personagem realiza meneios de cabeça para baixo, movimento relacionado à conclusão de idéias, o que no filme revela a finalização de cada objeto25. Esta transformação na linguagem corporal, com postura tensionada seguida de inclinação em direção à máquina, revela o papel do personagem no filme: apontar o trabalhador robotizado no período da industrialização20,26. Em sequência ao trecho citado, surge uma nova cena na qual Carlitos justifica o atraso do andamento na esteira ao supervisor. Os gestos mecânicos são substituídos por movimentos corporais de interação, com movimento rápido de negação com a cabeça, apontando para o supervisor e rapidamente para a esteira, sem perder o contato visual com seu chefe. A intencionalidade do personagem Carlitos na situação ao apontar para o chefe, e em seguida para a esteira, remete-se a uma função indicativa, para gerar no supervisor reflexão quanto ao trabalho que lhe é imposto27,28. A partir desta construção expressiva, Chaplin critica a submissão do corpo à máquina, que robotiza o homem20. Na expressividade, portanto, destaca-se o caráter de rebeldia frente ao novo padrão de trabalho apresentado pelo personagem. A partir da expressão facial, emoções e intenções comunicacionais são transmitidas10. No M1, Carlitos transmite pela face inicialmente um sentimento de tédio ao realizar a repetida tarefa na esteira. Em seguida, ele fica vigilante ao trabalho e apresenta maior tensão no momento em que atrasa o andamento do serviço, ficando surpreso ao finalizar cada broca. A vinculação da expressão facial com a crítica sociopolítica que este filme trata, demonstra a importância de pesquisas que busquem o estudo da relação entre as emoções e expressões faciais, com a proposta de maior aprofundamento científico pelos profissionais que atuam com a comunicação. No M2, o intervalo do trabalho, nota-se maior percepção das ações repetitivas no personagem. É neste momento, que se tem a idéia central do filme: o quanto o trabalho mecanizado transforma o personagem, ou seja, o modelo industrial imposto aos trabalhadores na época. Uma situação que revela o condicionamento do personagem é quando o mesmo é chamado a atenção pelo colega e ele se assusta. Ele fica surpreso, o que é observado pela elevação da sobrancelha.10 Novamente, este contexto se faz presente na expressividade do ator, quando este incorpora os movimentos necessários para a execução do trabalho nas ações diárias. Ao derramar toda a sopa, denuncia um personagem mentalmente condicionado ao trabalho, enquanto que ao levar os gestos mecânicos para situações fora da esteira industrial, demonstra o personagem como uma máquina fora de controle26. Nas duas situações citadas, sua expressão facial permanece exatamente como se ainda estivesse trabalhando na esteira, revelando as expressões de surpresa e atenção. Manter-se estático sem modificar sua expressão facial enfatiza, mais uma vez, a robotização do personagem como se tirasse a vida dentro do ser humano. A partir da análise expressiva dessas duas composições de cenas, observa-se que significados são construídos e nos são oferecidos como uma forma de Educação Visual baseada nos elementos da sociedade. No M3, com a aceleração da esteira na linha de produção, os movimentos do protagonista também se aceleram, transmitindo a angústia de Carlitos ao tentar acompanhar a montagem. Com a chegada do supervisor e a exigência de mais velocidade, as expressões da face corroboram com este sentimento de angústia, com maior tensão, sobrancelhas elevadas e olhos com piscar constante. Este último aspecto reafirma os movimentos repetitivos e acelerados que acometem o corpo todo no mesmo ritmo da manipulação das peças na esteira. Em conformidade com a linguagem corporal e facial no M3, Carlitos apresenta expressão de surpresa e de medo, o que tem relação direta ao sentimento que o personagem tem ao evitar perder o controle do trabalho devido à alta velocidade da esteira. As expressões faciais, assim, revelam a emoção do protagonista, especialmente os olhos, que são importantes na construção de significados29. Discussões sobre a importância da expressividade como grande recurso na construção de significados no cinema, aponta para uma nova perspectiva de pesquisa científica fonoaudiológica, tendo como objeto esses produtos midiáticos com a finalidade de reconhecer emoções humanas através da expressividade para identificação das intenções comunicativas, auxiliando-nos assim, a aprimorar nossa intervenção com profissionais da voz.


Com a análise dos três momentos no filme Tempos Modernos, a intrínseca relação da expressividade (movimentos rítmicos, gestos mecânicos, expressões corporais e faciais tensas e aceleradas) nas diferentes situações, com o tema abordado no filme ? a mecanização do trabalho ? fica evidenciada. O significado atribuído ao movimento é fornecido pelo contexto. Os movimentos padronizados em repetição constante e a expressão corporal e facial observados no personagem, destacam a expressividade como aporte desse filme, por estarem contextualmente ligados20,30. Outro fator importante é que o cinema traz elementos da cultura, e por isso, são ferramentas fundamentais para análise da sociedade na qual vivemos. A importância de se ver a imagem fílmica como uma reprodução de elementos culturais e do que acontece na sociedade, um objeto desse fato, é o de trazer significados sociopolíticos para o espectador, e neste filme, este papel é apresentado pela linguagem corporal. Através da expressividade, o momento de industrialização e o seu efeito nos trabalhadores da década de 1930 é revelado, apresentando o excesso de trabalho e o nível de stress que ele provoca no protagonista. 


Conclusão


A expressividade corporal no cinema mudo está carregada de significados que circundam determinado contexto em abordagem. Esta expõe as emoções trazidas pelos atores, oferecendo ao espectador a possibilidade de, por meio delas, refletir sobre os elementos culturais da sociedade ali presentes. Deste modo, pôde-se verificar que a análise da expressividade do personagem Carlitos do filme Tempos Modernos, transmite ao telespectador a ideia central do filme que é a mecanização do trabalho. Conclui-se, portanto, que o estudo da expressividade corporal a partir dos produtos midiáticos proporciona melhor percepção da relação entre a intenção comunicativa e a emoção apresentada pela linguagem corporal, permitindo repensar o olhar fonoaudiológico sobre a compreensão da comunicação através do corpo em todos os contextos comunicativos, pelos diversos profissionais que necessitam utilizar-se dessa linguagem para transmitir adequadamente sua mensagem. Outra consideração importante é que este estudo valida a proposta deste artigo que é reiterar que a linguagem corporal em si revela intenções comunicativas claras, evidenciando a necessidade de estudos científicos com base neste tipo de linguagem, um campo ainda pouco explorado na Fonoaudiologia


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